Quando estudar para concurso público vira vício
Do CorreioWeb/Concursos
Dois meses depois de se formar, o economista Rodrigo Santana aderiu à vida de concurseiro. Em um ano, já estava efetivado na Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Mas não largou os livros. Optou por conciliar o trabalho com o cursinho. E deu certo. Passou para a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e o salário pulou de R$ 3,6 mil para R$ 6 mil. Está bom? Que nada, ele continua estudando. Com 29 anos de idade, a meta agora é o Tribunal de Contas da União (TCU) e o salário sedutor de mais de R$ 8 mil. A prova está prevista para acontecer em 2007. Se for aprovado, ele promete: vai se dar por satisfeito.
Casos como o de Rodrigo não são raros. Para muitos, estudar para concurso público vira vício, mania. É difícil se desligar. Ser concurseiro é quase sinônimo de profissão. Há candidatos que passam na prova almejada, mas percebem a possibilidade de ir além. E vão. “O concurso é uma fila. Quando você decide entrar nela é como se fosse uma profissão mesmo. A fila vai andando. As pessoas mais preparadas vão passando. Durante o caminho, outras vão desistindo. Com persistência, um dia se chega na frente e a porta se abre”, compara o escolado concurseiro.
A busca por um melhor salário é o principal fator que motiva tal investimento. A pessoa continua a estudar porque acha que ainda não chegou onde poderia chegar. TCU, Minstério do Planejamento, Senado e Câmara Federal são exemplos de destinos almejados como objetivo fim. Mas antes de galgar até o órgão que realmente o interessa, o estudante encara outros concursos de menos peso como uma maneira de se bancar enquanto não é aprovado. É uma forma de construir a base para alçar vôos mais altos.
Famoso no mundo dos concurseiros, o juiz federal e professor universitário Willian Douglas, 39 anos, tem uma trajetória de sucesso. Passou em primeiro lugar nos concursos para juiz de Direito, defensor público e delegado de polícia, no Rio de Janeiro, foi o quarto colocado na seleção para professor de Direito na Universidade Federal Fluminense (UFF), onde, aos 16 anos, foi aprovado em primeiro lugar no vestibular para Direito, além de ter sido aprovado em quinto no concurso para analista judiciário (TRF da 2ª Região) e em oitavo para juiz federal (TRF da 2ª Região).
Atual titular da 4ª Vara Federal de Niterói (RJ), Willian Douglas chegou a dizer que não faria mais provas depois que foi aprovado no primeiro concurso. Mas acabou fazendo. E se deu bem. Hoje, ele garante: só ajuda os outros a passarem. Apesar de ter deixado o cargo de concurseiro, ele não abandonou por completo esse meio. Já deu palestras para mais de 500 mil pessoas em todo o país, escreve artigos relativos ao assunto para veículos de comunicação, participa de fóruns, além de colecionar cerca de 20 livros de sua autoria. Tudo isso, no entanto, ele concilia com a vida de magistrado e pai de família.
Na opinião de Willian Douglas, algo pode estar errado com quem se abdica de tudo e de todos para estudar mesmo depois de passar no concurso dos sonhos. “O cara que reconhece sua inteligência e se fecha nisso (no vício de ser concurseiro) cria uma zona de conforto, não se abre para outras experiências e começa a apresentar dificuldades de relacionamento interpessoal”, comenta. Para o professor, quem não consegue se desligar da vida de concurseiro pode ter problema de auto-estima. “É um problema de superação de fase. Não faz sentido”, diz.
Estudante por prazer
Esse não é o caso da professora de ensino especial da rede pública do Distrito Federal Francisca Renault. Ela está afastada do trabalho por problemas de saúde e aproveita o tempo livre para encarar os livros. Francisca já passou em cinco concursos e não se cansa de estudar. Por quê? Porque gosta, sente prazer em estar conectada com o conhecimento, diz ela. Aos 46 anos, mãe de três filhas, ela acredita que pode ir mais longe. “Não estou tirando de letra ainda não. Mas já não estou tão perdida”, afirma, com muito bom humor.
Almejando os concursos do Ministério Público da União (MPU) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Francisca se prepara três horas por dia. Elaborou um cronograma de estudos, separou as disciplinas por dia de semana e adquiriu ritmo próprio. “Não desanimo, não. Estudar não me estressa. Pelo contrário, ajuda a superar um pouco o fato de eu não estar em atividade”, completa.
Depois de 16 anos de vida militar, na qual chegou até o posto de capitão, o professor Luís Fernando Machado decidiu mudar radicalmente. Passou no concurso para o Senado Federal, onde trabalha desde 1992, e se diz satisfeito com a nova rotina. Para ele, o ser humano tem a tendência natural de buscar sempre o melhor. “Nunca estamos satisfeitos. Essa busca alucinada de querer sempre mais está arraigada em nós”, diz o professor, que agora se dedica a ajudar os concurseiros a alcançar seus objetivos.
Luís Fernando Machado acredita que o serviço público do país ganha com essa mania de alguns. “Faz com que tenhamos profissionais de excelente qualificação, com mais bagagem e mais experiência”, aponta. Para ele, a segurança financeira é também a principal mola propulsora do “estuda, passa, estuda, passa”. Assim como Willian Douglas, Machado é parceiro do CorreioWeb/Concursos no fornecimento de conteúdo. Também já registrou mais de 40 obras, entre livros, CDs e apostilas relativos ao tema. Além do bacharelado em Direito, ele acumula duas licenciaturas (em pedagogia e estudos sociais).
Os que conseguem chegar a esse privilegiado patamar de poder escolher por que caminho seguir dão crédito à persistência. Revelam que o segredo é perseverar. Sandra Regina Lima, a moderadora do fórum de concursos do CorreioWeb, conta que não são poucos os que passam em concursos e não conseguem se desvincular do meio. E ressalta a solidariedade entre eles. “Quem passa fica ajudando os que ainda não passaram, formam grupos de estudos, dão dicas, trocam material”, relata. Mais uma prova de que essa vida pode, sim, virar um vício. Mas que nem todo vício é tão maléfico assim.
Fonte:http://concursos.correioweb.com.br/noticias/noticias.htm?codigo=17369